Na sua etimologia “crise” significa “momento de decisão”, não se lhe pode fugir, é inevitável, tem-se que decidir.

Em termos económicos crise é momento de transição entre fase de prosperidade e fase de depressão, ou vice-versa.

Note-se a natureza rapidamente evolutiva dos eventos numa crise, note-se a necessidade de resposta, mas que passa por necessária e prévia aceitação psico-social da mesma ( quer pelos indivíduos quer pela sociedade). Portanto, crise força a decisão, não se pode não decidir, e em todos os aspectos da vida, quer sejam materiais ou espirituais.

Aqui chegados, racionalmente, e quanto ao mercado imobiliário, é provável que da crise a maioria das consequências se torne apenas visível lentamente dada a intervenção estatal ocorrida e que tenta filtrar e amortecer os seus efeitos. Saber-se hoje quais são as consequências desta crise, ou o seu real impacto, depende muito da futura disseminação do vírus e do seu controle, mas mais ainda da percepção pública (social) do risco existencial associado magnificamente denotado na “ordem de retirada”, dada pelas famílias dos alunos das escolas e sem qualquer intervenção governativa.

Posto isto, a pergunta de muitos investidores e clientes é “quando e como será a recuperação económica?”. Manda aqui a  cautela na análise de mercados, tendências etc.., tarefa de economistas sem consenso. Em nosso entender, é a incerteza existencial que dita a forma e o tempo da eventual recuperação económica. Portanto, apesar de todos os estímulos e de quantidades astronómicas de fundos à disposição, a mesma, em geral, deverá ser sempre lenta, isto levando em conta o impacto que a economia sofreu com o virus, a enorme desconfiança social e a natural precaução individual e colectiva ( medo) que se denota nas ruas das cidades.

Qual o impacto no mercado habitacional da intervenção governativa ( proteger empresas e famílias da perda de rendimento) através de medidas de proteção dos inquilinos? Em nosso entender este gerará um efeito de estabilização das rendas, num médio prazo.

Mas como aproveitar a crise, com integrar a crise?

É em tempos de incerteza que aumenta a procura por arrendamentos típicos ( baixo risco familiar) e , se a procura do arrendamento aumentar será natural que se procurem arrendamentos mais baixos, periféricos, ou zonas com menor densidade urbana, também com menor risco de contágio, o que poderá potenciar construção ou reabilitação de edifícios para esse fim de média e longa duração ( já não para efeitos turísticos).

Podem as empresas e investidores potenciar o investimento, reduzindo o risco da sua liquidez, através de oferta, racional, de novas construção em cidades periféricas e/ou zonas com consabida falta de oferta residencial.

Sinais a procurar: dinamismo empresarial na zona a investir; cidades com intervenção estatal educativa permanente; zonas geográficas com manutenção em laboração na crise pandémica de sectores industriais relacionados com o têxtil e agora considerado sectores estratégicos.

Por último, se o teletrabalho se estabelecer como tendência firme ( dependendo de novas crises ou surtos virais) será previsível que as famílias optem por maior espaço habitacional, o que afectará negativamente os conceitos de redução do espaço habitacional. Potencialmente, em reacção à crise, e antevendo o contra ataque da industria hoteleira, será natural a migração dos “AL” em alojamentos para estudantes ou jovens em início de carreira, retornando ao ambiente e mercado habitacional típico.

Dr. Guimarães Lopes ( Advogado )